sexta-feira, janeiro 12, 2007

Já não há nada para fazer. O orgulho deixou-se morrer nas intermitências da luz. Hoje sou eu. O leve esticão da vontade, puxada mais atrás até não ter mais espaço a percorrer, largada,
e ouve-se um estalo,
Cheguei.
Entro porta adentro, repetindo-me, preparado para correr escadaria acima, madeira a ranger, suor, força, a pulsão do meu próprio desespero, estendendo-se, com a mesma certeza com que as batidas cardíacas ocupam os espaços que perfazem um minuto. Hoje sou eu. E tudo o que faço, nesta casa abandonada como o meu corpo, é apenas uma simples hipótese.
No topo das escadas olho em volta, os degraus foram às centenas, as portas várias, escolho, sete passos à direita, mais seis novamente à direita, entro mais adentro, repetindo-me, procuro uma janela, um salto de fé de quem tenta levitar. Hoje sou eu. E o que sobra de mim já não é suavidade. Quero cair. Até deixar de sentir, as horas serão cada vez mais pesadas, até todo o tempo do mundo se ensimesmar. Até nada restar a que possa chamar de perda. Quero ir.
Assim.
Deixar-me ir como no dia em que coloquei a mochila no banco de trás, contei o dinheiro, entrei no carro e não mais fui passado, apenas presente. Quis crescer. Hoje sou eu. E tento falar de tudo o que me dói até perceber quem já não posso ser. Falo de mim, aprendo a tossir sangue, reformulo cada circunstância que me faça questionar. Não quero mais esta memória, este quarto, esta violência. Em voo. Vou brevemente chegar, esmagar os joelhos na queda, perder-me uma e outra vez. Ganho força, velocidade, agressão, rebento as terras húmidas, entro mais adentro, repetindo-me, abaixo da natureza os meus olhos eu eu eu a voz agora já só existo feito toupeira, cego.
Hoje sou eu.
Faz escuro, aqui, onde a minha alma não distingue o branco do negro, faço parte de algo, finalmente representado, mais uma sombra em a toda a prolongada escuridão. Que serei eu, senão tudo isto.
Serei ainda?



Hoje sou eu.

[E a última alucinação consuma-se.]







P.

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