quarta-feira, maio 11, 2005

mais um dia

Lá estava ela, com o mesmo ar afoito de sempre, pronta para se maquilhar. Ena, que mundo este.
- Ouve-me.
…Já estás a alucinar em demasia tu e sabes bem que sou um tipo ocupado, sempre com cenas para fazer. Agora não me lembro bem do quê mas de certeza que são importantes. Ah sim, mas olha, não precisas do que quer que seja de mim, mas eu preciso de qualquer coisa.
- Onde foste?
…Estava aqui a ver se encontrava uma t-shirt lavada. Sabes, era esta a vida que eu gostava de ter; pois, eu sei que é sempre, sempre assim. Hum, ok. Mas antes que me esqueça queria dizer-te que. Não era isso. Aqui há dias estive na tenda de uma astróloga cheia de rugas e cabelos grisalhos (em tempos foram loiros, parece-me) que me disse para ter cuidado com o décimo terceiro dia deste mês – é uma sexta-feira – apenas porque sim (são as superstições que movem o mundo, tudo o resto é efémero), porque geralmente é assim e nesse dia podem acontecer um sem número de coisas sem sentido a gente como eu. E isso assusta-me, vá lá saber-se porquê, mas assusta-me; que posso eu fazer? Ah, e já agora, tanta maquilhagem fica-te mal, pareces…
- E se fosses…!?
…Sim, eu sei que pode parecer uma coisa parva de se dizer, mas ouvi um músico a cantar, dizendo que podia voltar pelos caminhos-de-ferro, a pé, e que poderia demorar algum tempo, mas acreditava que havia de encontrar o seu caminho de volta, e é pah, achei que era uma cena cheia de lógica, embora não conhecesse o gajo de lado nenhum.. Pois, exacto, mais um dia a despontar cheio de luz. Tu sabes que estas coisas quase me dão um ataque cardíaco – nunca tive jeito para ter jeito. Nenhum.
- Sim, mas agora cala-te. Preciso de silêncio
…Eu devia começar a correr; catapultar-me para o centro do peito e cravar-me feito espinho. Posso começar a gritar, tu sabe-lo tão bem quanto eu pois ainda tenho força nos meus pulmões. Tu existes e eu vou tirar as mãos dos bolsos para te poder desenhar. Despacha-te, vai buscar uma folha de papel amarelada. Estou a sonhar em tons claros. Vou sair
- Leva casaco, lá fora faz frio – (é verdade, o frio constrói-se como uma casa).
…Sim, farei isso.





[Eu podia ficar aqui para sempre.]





P.

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