sábado, setembro 30, 2006

João

Estou no escritório de advogados e a minha cabeça, gira. Tenho saudades de escrever, tenho saudades de olhar para o céu e imaginar mesquitas inventada, passa um zumbido pelos olhos e sai-me sangue da boca enquanto passo faço sentenças processos Essa procuração é irrevogável e agarram-me por trás aparecendo uma bola vermelha no canto superior da sala, Tenho de voltar à faculdade penso eu, tenho de voltar à faculdade! desprendo-me dos braços e ando vários dias várias, horas para trás recordo-me agora dos sonhos que tenho tido, num uma amiga minha entra-me semi-nua pela janela de um quarto que não é o meu e agarro-a pelos ombros espantado, os meus pais estão magros como vacas e cuspo sangue de novo num quarto de hotel, a minha cabeça gira e desejo pela calma da rotina dos dias que não tenho enquanto uma amiga minha volta a ver-me, as saudades miss R., parte, zangada, desaparece e a minha cabeça gira sangue enquanto
- J ajuda-me aqui com os meus óvulos os meus ovários, vem fazer um colar de penumbras e silêncios ensanguentados comigo cheio de suores frios,
Tenho que voltar a falar sem me sentir surpreendido, enquanto os sonhos me perseguem e uma mulher que não terá mais que dezassete anos toca com o braço levemente esticado num prédio e o prédio amanteiga-se e foge em fios e farrapos pelo ar,
Eu amo uma gótica,
Eu não amo as góticas
- toda a gente tem medo do dia de amanhã J quando me cortaram os braços julguei que nunca mais conseguiria sair fora de casa ir às compras cantar sai à noite e no entanto olha para mim olha para mim
- P. estou a sentir um sabor a sangue na garganta
Não estar farto de sangue é estar farto da palavra Sangue, sangue sai-me do nariz enquanto o chumbo das nuvens cai sobre as pálpebras - levemente abertas - do meu outro sonho, P.,
Diz-me - toda - a - gente mata sente o seu próprio pulso eléctrico pelas facetas da Lua escondida,
- Ela aproximou-se de mim e bateu-me, deu-me um estalo na cara, Tenho de voltar à Faculdade,
Todos os vidros desta cidade estão inteiros, todas
As casas albergam formas de fazer dinheiro e mensagens ou paisagens que desconheço,
- cuidado, cuidado, cuidado com as pessoas!!
- Rezo por aquela a observar ainda tudo mais de longe, A
parede branca fria saúda-me eu Arfo










J.

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quarta-feira, setembro 27, 2006

Sobre o J.

O J. é um tipo porreiro.
Lembro-me de quando o conheci, éramos novos, assim para o novinho e ele apanhou-me a descer as escadas lá da escola.
“Tu é que és o…” – trocou-me logo o apelido, o fulano, logo o meu apelido que por aquela altura mais parecia uma marca registada. Eh eh, parvo, pensei; mas não fiz caso. O J. lá vagueava ainda a ambientar-se às coisas e com o tempo lá nos fomos conhecendo. Nessa altura ele era assim mais para o tímido – hoje em dia mais parece não ter vergonha na cara. Mas era compreensível. O primeiro sinal para perceber o que se passava, deu-se depois de uma aula de educação física. Nos balneários, habitual antro de estórias e maledicências, ele teve de se despir, como todos os jovens, e confesso que fiquei algo espantado com os seus três pénis, um deles roxo. Não os tinha baptizado mas antes que a estranheza se propagasse lá explicou que um deles era o dito “normal”. O roxo só o usava uma vez por semana numas míticas quintas-feiras à noite. O terceiro pura e simplesmente nunca lhe havia dado uso.
A coisa lá foi andando por uns dias até que ele finalmente abriu o jogo.
“Sabes, P., o que eu queria mesmo era cuspir fogo!”
- Yah – disse-lhe - eu já tinha percebido pela tua cauda de dragão, mas acho que isso não tem grandes perspectivas de futuro.
Presumo que tenha sido nessa altura que ele decidiu ir para Direito. Ainda assim havia muito tempo para o final do secundário. Éramos os rapazes mais novos, numa turma quase exclusivamente de raparigas e olhámos um para o outro com a nítida sensação, Bem, é melhor que nada.
Adolescentes, vivíamos na consciência de cada dia era um autêntico melting pot de caminhos novos por desvendar e talvez tenha sido por isso que partilhámos o nosso gosto pela escrita.
“Um dia criaremos um blog…chamar-se-á A Navalha” – dissemos em coro, proféticos.
Claro que tudo isto é mentira, só anos depois nos ocorreria tal ideia, mas era muita catita se fosse verdade. No entanto, delineámos um autêntico plano de batalha.
Telepaticamente ou por força de uma magia negra qualquer decidimos aproveitar o nosso desinteresse em encher cadernos com apontamentos de aulas, e optámos por dar vida ao nosso primeiro projecto em conjunto:
As Banalidades.
E eram tantas. Peças humorísticas, frases absurdas, desenhos irreais, tudo o que não fizesse sentido encontrava o seu abrigo nas folhas soltas que diariamente acumulava-mos e que eram guardadas com carinho. Fechou-se um ciclo e, armados em espertos, trouxemos alguma seriedade à coisa. Das banalidades passámos para poemas escritos pelos dois, que, inteligentemente, baptizámos de Poemas Conjuntos. Por esta altura parecíamos uma máquina criativa bem oleada.
E éramos, pode-se dizer, amigos. Eu era a faceta racional da crew de dois bacanos a que demos origem, e o J. dava cabeçadas na parede e gritava coisas como
“Seremos livres!” e “Tenho fome!”
- És um bocado estranho, não achas? – disse-lhe eu certo dia. Não me lembro ao certo do que ele disse, mas isso não alteraria em nada o rumo dos acontecimentos. Eu já tinha a minha resposta bem definida.
Como em todas as narrativas sobre grandes amigos, nós obedecemos ao lugar comum e éramos impossíveis nas aulas. Lembro-me que sempre que se marcava um teste, a sala de aula era invadida por um estardalhaço brutal. Toda a gente praguejava e dava sugestões para datas em altos berros. Para mim e para o J. era a oportunidade ideal. Enquanto o caos se propagava livremente, eu e ele gritávamos histéricos, ininterruptamente, AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH. E calávamo-nos no exacto momento em que se fazia silêncio, orgulhosos por, mais uma vez, ninguém ter reparado. Talvez esta já fosse uma metáfora para o contributo que haveríamos de dar ao mundo.
Houve um dia em que, bem no fundo de uma enorme sala, durante uma aula de História, fui tomado por um transe psicadélico. Sem me aperceber, acabei a desenhar no livre um smiley azul, de sorriso diabólico, que se auto-intitulou de The Demented Blue Man. No dia seguinte, numa outra aula de História, o J. estava a folhear o meu livre e quaso que dava um daqueles gritinhos de menina de 7 anos ao deparar-se com a figura infernal que lhe sorria. A partir daquele momento criámos uma série de novos bonecos, todos smileys, preparados para nos assombrar. E assim foi. Até aos dias de hoje.
Eventualmente o secundário acabou. Chegámos cada um à sua faculdade, preparados para sabe-se lá o quê. Eu continuei a minha cruzada imaginária para salvar a humanidade da sua maldade inerente, e o J. ficou-se por coisas mais mundanas. Cresceu-lhe uma terceira orelha nas costas. Quando ma mostrou só fui capaz de lhe dizer, És uma aberração.
Ele olhou-me nos olhos, naquilo que poderia ser descrito como um momento dramático, e disse:
“’Tás louco, ou quê!? As miúdas adoram cenas assim pr’a o diferente…até vão delirar”.
Sim, o J. é um tipo porreiro.
Sempre me deu bons conselhos de vida. Outras vezes nem tanto. Aqui há uns dias virou-se para mim todo contente, “Epah, nem tens bem ideia, agora o que está mesmo na moda é ser estrábico!”. Não sei como me convenceu mas lá passámos o resto da tarde a revirar os olhos quando falávamos com alguém. O que até nos deu algumas cenas à borla, entre alguns comentários de pena.
Mas no fundo, no fundo, o tipo não tem mesmo solução.
Ele é mesmo assim, o meu amigo J.







P.

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segunda-feira, setembro 25, 2006

Setembro, enfim.

Seriam nove, esses gritos, atribuídos com sensibilidade um por um a outro tempo quase finito
e repito-me
Não
não o digo por mera incerteza, recordo-me apenas dos silêncios contados pelos dedos, que percorríamos com o olhar preso um no outro De fora falavam-me da vontade e escondíamos a cabeça entre as mãos ao pensar em palavras começadas por Vê
Vida
e perfilavam-se assim, essas palavras, e pensávamos que cada significado era duro de mais para ser descrito, Verdade – e em todo esse tempo o contacto tornava-se impossível
Velocidade
e tudo se tornava mais simples
Penso que sim, que sabia quem era E os dias eram passados sem espelhos: não se queriam revelações nem memórias nem saudades nem incertezas e por isso todo o vidro era estilhaçado com um objectivo bem definido… Mas faltava aprender algo, sempre sempre a aprender como se cada gesto possuísse um manual de instruções; pensava-se a poesia, não como o fazem os poetas, a quem se exige constantes ensinamentos, mas como o fazem as páginas dos livros, instrumentalizadas. Virava-se um verso
E lá estava
a sensualidade a descoberto, uma folha branca e tinta, tão escura, parada no seu movimento
parada
O que quer que estivesse a preencher a página, saberíamos que era real porque alguém o havia inventado E nunca escrevíamos
Fomos, confesso-o, meros
escritos
a quem foi dada a possibilidade de existir como almas quebradas, desfeitas, em pequenos pedacinhos, tal qual os espelhos que assassinámos
E desse modo não valia a pena pensar, pois não, conhecer-nos não passava de um desejo e tudo o que queríamos era ser violentas cordas de
sentimentos
tocadas em choro; Seríamos, quem sabe, um nós(?)
Pensava saber quanto tempo demorava o tempo e acabo agora a ver-me
desaparecer.





P.

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sábado, setembro 23, 2006

Querida __________________

Finalmente, depois das primeiras duas semanas, consigo escrever-te. Dediquei-te um poema há uns tempos passados (não sei bem, - não sei bem como quando foi), em que estava um pouco confuso. Agora já estou melhor.
Andei…exausto toda a semana. Muito não se poderá dizer mais de um homem que vive nas salinas. Quero voltar a falar sobre isto - quando vieste, em Março deste ano ou outro, e vinhas com uma saia. Essa saia ficou-me presa à recordação muito tempo, como se desafiasse os horizontes muito, muito finitos da minha memória. Saía-lhe fogo enquanto andavas e borboletas te saiam, imagino, por baixo das pernas, o castanho, o vermelho e o laranja misturando-se com o cinzento chumbo do céu e da paisagem à volta. E pães, brancos como farinha no teu regaço.
Como se aquele tempo fosse outro tempo, outro tempo muito antes de eu e tu ainda nascermos, como se não fosse o nosso tempo. Sinto o cheiro a sangue quando digo qualquer coisa a sair da minha boca. E ontem pensei: a Terra tem de ser demasiado grande. Demasiado grande para mim, já que eu tanto tempo passei nestes campos de sal, ao lado das velhas anciãs, e a cada dia que passa me vou descobrindo mais e mais, e, assim, desbravando outros e mais horizontes na própria terra, sulcando fendas no céu pesado?
As paredes estão desenhadas com pensamentos que não quis esquecer, então pu-los nas paredes com os olhos, e o cheiro
Por vezes quando
Por vezes quando olho muito para os lagos de sal vejo submarinos
Submarinos a irromperem, azuis e cinzentos e pequenos mas como uma Orca, pelos campos de sal, e sinto o tecido da realidade a rasgar-se



E não sei quem tu és
Ainda não sei quem tu és


Pára
Quem eu era quem eras tu quando te vi pela última vez

Onde guardei o espelho em que vi o teu
Reflexo









J.

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WantoTwo, part one

"Better pray for your sins

Better pray for your sins

'Cuz the gay messiah's coming."





J.

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quinta-feira, setembro 21, 2006

...e agora um pouquinho, poucochito de sátira política.

A Navalha envia um abraço de parabéns ao primeiro ministro da Hungria, Ferenc Gyurcsany.
Para quem não tem estado atento às notícias, nas ruas da capital, Budapeste, há registo de várias centenas de feridos, resultado das manifestações que exigem a renúncia ao cargo do supracitado primeiro-ministro. Ao que parece apanharam uma gravação do pobre homem, numa reunião à porta fechada, na qual ele revelava perante os seus pares que, no último ano e meio, ainda não tinham feito nada pelo país e, mais do que isso, que tinham mentido descaradamente às pessoas durante este tempo todo acerca da situação económica do país. Para quem já ouviu a gravação, é delicioso ver como ele considera que têm agido, denotando-se um certo desprezo em relação à própria pessoa e ao governo que gere.
Sinceramente, parece algo tirado de um sketch humorístico do Gato Fedorento.
Só não compreendo os protestos das pessoas, tudo bem que mnentiram e nada fizeram, mas não é comum dizer-se coisas do género “os políticos só querem é “poleiro”?.


Afinal de contas ainda existem políticos honestos.





P.

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terça-feira, setembro 19, 2006

Steve "Crocodile Hunter" Irwin

Há pouco mais de uma semana morreu Steve Irwin.
Muitos de vocês conhecem-no como Crocodile Hunter. Australiano, de 44 anos, sotaque bem aguerrido, confesso que desde que vi algumas imagens dele, satirizadas, no Daily Show do incrível Jon Stewart (um dia também falaremos dele), que o homem sempre me despertou algum interesse. Loiro, sempre de calções e camisa verdes ou castanhos, parecia um autêntico puto – para ele o mundo seria um autêntico Zoo.
Chegaram a fazer um filme sobre a vida dele The Crocodile Hunter: Collision Course. Apareceu na Oprah, no Jay Leno, no Conan O’Brien e até com o Eddie Murphy, em Dr. Doolittle 2. Sabe-se lá por onde mais andou. Britney Spears conduziu com o filho ao colo, Michael Jackson, esse mito, exibiu o filho, à janela do hotel, para os fãs, e quase que o deixava cair. Bem, Steve Irwin levou o seu filho com menos de um ano para o meio dos crocodilos, fê-lo saltitar, provocante, a poucos metros de crocodilos mortíferos. E divertiu-se. Não terá sido maldade (de inconsciência não falaremos), mas ele próprio fora educado num parque de répteis, em Queensland, que pertencia aos seus pais. Quando se pensa em certas pessoas, famosas por viverem constantemente em perigo durante anos e anos, numa base diária, acabamos por pensar que a dada altura já passaram uma espécie de fonteira, para além da qual já nada lhes acontecerá, que morrerão velhotes, rodeados de filhos e netos, todos felizes. Ou talvez nem tanto.
Não serão certamente imortais, mas roçam o género.
Steve Irwin provocava animais que só nos aparecem à frente em filmes, ou bem guardados no jardim zoológico. Tentava montar feras, metia a cabeça dentro da boca de crocodilos… e sorria. Segundo consta chegou a lutar com dragões de komodo. Era filmado a entreter-se com cobras venenosas. Deixava-as enrolaram-se à volta do braço, segurava-lhes a cabeça para as beijar. Nada o fazia mais feliz; acredito que a mulher se casara com ele sabendo que teria de cuidar de um miúdo muito irrequieto. Mas ele era assim. Enquanto o filmavam nas situações mais caricatas, ele não parava de comentar. E lá estava ele, entretido com a serpente quando, segundos antes, nos havia explicado que se tratava de uma das mais mortais espécies do mundo que com uma simples mordidela seria fatal. Quando as coisas corriam mal e era ferido, não havia problema, cada corte era um autêntico trofeu, a prova viva de que havia domado mais uma fera.
Morreu enquanto filmava, juntamente com o neto do grande explorador Jacques Cousteau, um programa intitulado Ocean’s Deadliest – algo bem ao seu estilo. Ironicamente, não foi devorado por um tubarão nem nada do género. Foi mordido por uma raia. E morreu fulminado em cerca de 15 minutos. Uma raia, tão habitualmente inofensiva – talvez um simples distracção do Crocodile Hunter, já que as raias só mordem quando se sentem na necessidade de se defender. “Um caso num milhão”, disseram, sobre uma morte assim. Sem dúvida.
Como Steve Irwin, o homem dos calções caqui, que nunca chegou a crescer.





P.

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segunda-feira, setembro 18, 2006

Poema muito curto neo-impressivo com vista a deixar algo vago para ideias futuras

Adeus

Vou dar de comer às pombas

Tenho pombas feitas de gasolina

no meu quintal no sótão







J.
(dedicado ao storpe, o único gajo com quem eu quero casar e já casei)

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quinta-feira, setembro 14, 2006

Analord

O facto de, agora, não ter trabalho, não quer dizer que não esteja a trabalhar imenso. Serão cinco minutos – aqui, mais uns dois ali, no fim do dia devo ter uma paragem de dez a quinze, acho que suficientes para o texto – guardo tudo no Bóris e abalo pelas nove da noite para casa. Profissão liberal – muito, muito sedutora e, também, algo stressante – até para mim, neste momento encarregue apenas de escrever declarações, preencher contratos de arrendamento, ir ocasionalmente ao tribunal entregar o que quer que seja (embora tal ainda não me tenha acontecido), procurar dados em processos de empresas, sociedades, desencantar do fim do mundos números de B.Is e números de pessoas colectivas. O texto estará seguido, mas pararei decerto muitas vezes.
Estou num escritório de advogados da avenida Gago Coutinho, entre a rotunda do relógio e a “outra” – no areeiro. É uma forma diferente de acabar as minhas férias, estas últimas três semanas em que faria pouco mais que tocar harmónica, sair por aí, e dar uma vista de olhos às fotocópias que tirei de livros em alemão e espanhol para apresentar as minhas duas orais de melhoria. Eu queria poder, pelo menos, escrever uma história qualquer – não tinha nada em mente, mas pensava num casal e uma espécie de diálogo entre os dois invertido, e de trás para a frente, algo sem muita forma.
Um Ele e um Ela. Ando um bocado fora de tudo ultimamente, será talvez de uma ressaca (in)esperada do mês de Agosto que passei.?, acho que é possível. Não tenho estado muito com amigos, não tenho feito muitos esforços nesse sentido (nem eles), não tenho tido a necessidade, grande, de estar com pessoas de quem gosto e com quem gosto de estar – parece que as memórias têm sabido melhor, vá-se lá entender essa estranheza. Comprei uma harmónica há pouco tempo, apesar de já ter a ideia na cabeça há meses, e tenho-me divertido a tocá-la, quando quero apenas relaxar; não toco bem, ou ainda não toco bem (nem sei como se deve tocar, soprar ou segurar uma harmónica) mas lá me tenho divertido. O som sai sempre bem, pelo menos para mim. Claro que ainda não faço coisas complexas, mas estou certo que lá chegarei. É apenas uma questão de tempo até me apaixonar pelo instrumento.
Tenho tido saudades de certas pessoas, sim – mas não quero vê-las. Isto é tremendamente estranho, quase uma novidade para mim. Mas eu queria mesmo contar uma história, pelo menos narrá-la. Só pela necessidade de escrever algo que não seja autobiográfico – ultimamente, parece que é tudo aquilo que escrevo. Um ele e uma Ela. Sempre um ele e uma Ela, o mundo parece girar à volta dessas duas personagens – ou seja, as histórias entre duas pessoas parece que já foram todas contadas, ou parece que nenhuma história, entre duas pessoas, é nova. E porque não tentar mudar isso? Porque não tentar descobrir algo diferente na normalidade?

Anteriormente escrevia no sentido de tentar encontrar, ou escrever, a maior anormalidade possível numa qualquer peça de escrita. Hoje em dia, satisfaz-me muito mais tentar encontrar uma anormalidade não menos maior, adormecida, numa normalidade parente, estóica, quase como um dogma. Apetece-me fazer piadas, beber até cair, sentir-me zonzo e só ver pontos brilhantes à frente do olhar. Estar na escuridão total no meio da rua. Apetece-me rir imenso e estar com pessoas que também se riam imenso. Mas toda esta letargia, este fora do mundo, me tem sabido tão bem.

E agora, a minha hora de almoço acabou. É tempo de voltar a corrigir sentenças.




J.

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segunda-feira, setembro 11, 2006

Coisas a fazer antes de morrer, I

Ver um filme porno em mute enquanto toca a Hallelujah, do Jeff Buckley.




J.

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sábado, setembro 09, 2006

Memories of Yesterday




By: Bikini Killer.

Na foto: Coisão e Coisinha (Ynês). Dois amigos meus. É uma galeria muito boa, que vale a pena ver toda.
Go check it out.



Entretanto, vou fazendo os meus primeiros sons primitivos e sentido-me um pouco perdido no mundo, deliciosamente (talvez, como o P.).






J.

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quinta-feira, setembro 07, 2006

Que dia do mês é hoje?

Ando a ler o liro confissões de santo agostinho. Salto cada duas páginas para o capítulo seguinte, mas estou a lê-lo. É a minha leitura de cmputador: há pessoas que lêm nos transportes públicos, outras antes de se deitarem, eu leio enquanto ligo o computador ou espero uma resposta no msn.

Ando a ouvir a promiscuous da Nelly Furtado; completamente viciado. Também ando a ouvir captain beefhearth ao vivo em todas as ocasiões em que não o devia ver.

Ando a ver a vida a passar, nenhum filme, nenhuma ideia: Paris, Texas, há uns 3, 4 dias e a ideia que eu tinha do filme seria tão diferente. Porque, eu ouvi a banda sonora primeiro que o filme: e tudo aquilo me sugeria um filme no deserto, percebe-se? no deserto, talvez apenas com duas personagens e muitos poucos diálogos, em tons de vermelho e amarelo por todo o lado, pouco vento. Quando digo deserto não digo deserto do Sahara, ou até um deserto gelado ou salgado, digo o deserto do Arizona, ou de Texas. Quase que acertava, o filme começa no deserto do Texas, sim, mas acaba em El Paso, perto da fronteira com o México.
As cores são diferentes.

Ando a escrever a história de um tipo que foge depois de ter morto a namorada para cidades e locais fora das fronteiras do mundo. Demasiado grande para postar por aqui. Também ando a contar a história de uma família em que não se passa nada (a ideia é, ainda assim, tornar a história interessante), e outra chamada Papagaio de fogo em que começa com dois vidros a serem estilhaçados ao mesmo tempo de dois prédios por duas pessoas que não se conhecem. Porque se chama papagaio de fogo não sei responder.


Voltei a pôr a promiscuous a tocar.





E agora, que as noites já começam a chegar mais cedo mas ainda são belos e grandes os pôres-do-sol, aproveito todas as oportunidades para conduzir, sempre que posso. O vento já não queima tanto, aos finais das tardes que andam a passar por setembro, e dá-me para nunca querer chegar ao lugar para onde me dirijo. Penso que já terei falado nisto. Há esta nostalgia por todo o lado, ou sou só eu que a sinto? É muito estranho esta paixão pela viagem e pela fuga - ou nem tanto, talvez, já a sinto há tanto tempo... Estava a pensar: se eu renascesse num animal numa vida futura, preferiria antes renascer numa árvore. Quando era miúdo talvez tivesse dito lobo, ou tigre, mas hoje gostava de renascer numa árvore. Porque as árvores são parte de um quadro e criam outros, porque as árvores são tristes mas não têm pai, nem mãe, pertencem ao mundo verdadeiramente, estão enraizadas a ele. Quais seriam os meus dedos? os meus ramos finos ou as minhas raízes? alguém devia fazer um estudo sobre isso, nada científico, para me deixar sorrir um pouco. Não sei bem porquê (ponto de excalmação). Mas acho que era uma árvore. Talvez um choupo. Li uma vez num livro que essa tinha sido a árvore que o pai do escritor, que acabara de morrer, plantara no jardim quando o filho nasceu, em sua homenagem. Jurava ele a pés juntos que o pai não era de sentimentalismos, portanto não conseguia conceber o gesto simbólico de plantar uma árvore pelo filho, um choupo, no jardim, nas traseiras de casa, à frente da janela do seu quarto. Acho que gosto, da ideia.

Voltei a pôr a promiscuous a tocar.





J.

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segunda-feira, setembro 04, 2006

Corajosos cavalos multados por condução binocular sustentando as faixas de jade no mundo, IV

Fomos a uma marisqueira
E estava tudo nos conformes
Os polvos feitos de sacos de linho estavam
alinhados dentro dos tanques e nos jardins
as mesas de ferro mijavam-se pelas pernas abaixo suspirando
e inspirando o ar avesso às paredes,
tropeçávamos ou estirávamo-nos no chão
enquanto viamos um oceano descer sobre as nossas
cabeças e os empregados tinham insectos nas bocas
e nos olhos que sorriam mais do que eles E eu disse
- Poppy, os estômagos de todas as pessoas imprimidas estendem-se
por metros de leite condensado, chegaram os mariscos
e uma namorada acabava com o seu companheiro
quadro de borracha e eu comecei-me a rir
pelas relvas artificiais,
as palmas faziam as vezes das vozes
as cantinas revoltavam-se e saiam da cozinha,
a massa do arroz pintava-se de azul para
brilhar como estrelas quer dizer, dobravam-se
a falta de truques mágicos às pinças rectais
dos mexilhões,
sim,
rectais,
As poupas à rockabilly dos familiares presentes
mudavam a força do vento acabando com toda
a produção de crustáceos e paquidermes que eram
comidos às escondidas em tubos de
geleia cheia de personalidade e com saudades
de todas as suas mães e pais, cortavam dedos
e casacos os menús com um engano de
turistas com as cores trocadas provocando
Terríveis cólicas e gargalhadas
Não decidimos
pagar, saímos


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- Owed T'Alex

- Dropout Boogie

= Hairy Irene



Vamos dando, com fotos suspeitas, músicas calminhas sem nenhuma explicação, lamentos de clichés e poemas esquizofrénicos, as boas vindas ao fim do verão.





Beijinhos pá!

J.

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domingo, setembro 03, 2006

É pena.

Odiar clichés tornou-se um cliché.








P.


(Espero que agosto vos tenha corrido bem)

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sexta-feira, setembro 01, 2006

Angeles

Angeles.









J.

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