sábado, abril 30, 2005

Inlandsis

O monstro oriundo das regiões polares
Surgiu Tornando-se o frio imortal
Ele é o deus que regurgita Cristalizações
de onde vem o impacto
são as toneladas infernais
sem a nova preocupação
O mágico morre quando nasce o passado
e é na geografia das Formas
onde a gigantesca mão cinzenta molda os céus
Que se abateram Os cavaleiros de armadura vermelho rubro
cada sonho violentado Quando o segurar
Para quando largá-lo
É esta a vida a abandonar A tal história interminável
esquecida Novamente perdida
Cada ancião já ferido
Outro sonho já sentido
É aqui Nas profundezas do imortal inlandsis
que se regenera a brutal sinfonia
Mais um coro de vozes roucas a derreter
num mar de chumbo Não sabemos como fugir
Estamos cansados Para sempre presos à certeza
Não mais se poderá encontrar refúgio Mas olha
Olha agora
Para o exército de borboletas negras Elas caminham esvoaçando
sentiremos na pele o nevoeiro que provocam
com o seu divino bater de asas Não lhes toquem
Nem a própria poesia pode ferir de morte o que é belo
Mas voltem Todos vocês (sem rosto)
A esta origem Porque um dia
Tudo começou aqui
E alguns anos passarão até os joelhos cederem tolhidos pelo frio
E na longa viagem do que é profundo Chegaremos
Um dia
Regressamos juntos



A inlandsis.






P.

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sexta-feira, abril 29, 2005

outras revelações.

O que alguns pensavam ser choros talvez não passassem de leves risadas, um texto, um karma novo – um todo incompleto para sempre livre. O adormecer no chão, esgotado, de sorriso nos lábios, o som que lá de alto ecoa; o tal relógio de cuco na parede que espreita, pragueja e se esconde. Cada ano recordado em folhas de papel rasuradas. Pega no telefone e liga a alguém que te importe, conta-lhe a pequena mentira de que tinhas uma razão qualquer para o fazer. Faz por esquecer que ontem estavas triste. Hoje és algo maior, mais especial, e só por isso te digo para saíres de casa: senta-te num jardim a ler aquele livro de que tanto gostas; está sol e só tu podes fazer qualquer coisa para sorrir. Esquece os conselhos que te dou, as adolescentes filosofias de quem viveu em silêncio e julga agora poder descrevê-lo. Hoje sou modesto e só por isso aprecio os tais desígnios que criam a inestimável clareza de tudo isto que agora é tão suavemente…teu.
E sim, confesso que sim – procuro a confusão por entre a lucidez. Não, não é do caos que te falo. O poderio hímnico de cada fim de tarde abandonado em mais uma viagem de comboio; é real, sabes que sim, basta tentar – perceberás que toda a gente caminha de um lado para o outro fustigados por um qualquer surto de febre em período de primavera.
Sim, está tudo bem, sou eu quem to diz embora compreenda que isso não terá grande significado. epah parabéns pelo teu regresso, um dois e três cá vai mais um desejo, mas chama-lhe um beijo se houver algum sobejo. Olha de soslaio para os tremores da existência. Aprende, como eu, a contar piadas sem graça pelo simples prazer de rir do absurdo. De certeza que é véspera de qualquer coisa e amanhã terás mais um dia para não fazeres a mínima ideia de onde estás ou do que fazes e, ainda assim, não te podes sentir mal se te apetecer saltar no meio da rua e gritar, Hoje está







Hoje está qualquer coisa, pouco importa o que é. É a única desculpa de que precisas para dançar até ao fim do dia, para dançar até a terra do chão se revoltar, até cada membro do teu corpo pedir descanso, até seres quem - una e indivisivelmente - és.





P.




Nota discordante: Já não escrevia por estes lados há um tempo e não quero saber se sentiram a minha falta…eu senti falta de vocês.

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domingo, abril 24, 2005

Notas.

Sim, o meu dente ainda não cura, mas ainda sofro deliciosamente ao som desta belíssima música de jazz. então pensei, mais uma vez, porque não a escrita, porque não fazer arte com três dias sem saír de casa, e não ter nada para dizer de novo ao mundo, tirando um poema que fiz ontem...?
Podia falar de absolutamente nada, ou de absolutamente tudo; julgo que o resultado vai dar ao mesmo. - viramos as costas, abandonamos a mensagem, e com sorte ela perdurará, ela fingir-se-à eterna. ela irá desmentir, na face ou na mente de alguns, que eu sou uma fraude, um falhanço - enquanto pessoa que escreve. enquanto somente eu, preso à inconstância de um tempo e de um mundo que ainda não domino como quero. Pergunto-me se algum de vocês o domina.
Está um Sol absolutamente feliz, mas tudo aquilo que consigo neste momento sentir é aquela tranquilidade assustadora dos velhos. uma apoteose, fraca, que bate na minha face inchada, enquanto olho pela janela desta cidade absolutamente doentia - Amadora é uma cidade estranha, diria eu há uns meses, mas agora já não direi estranha porque a compreendo muito, muito melhor agora. é uma cidade onde os homicídios têm a mesma importância da primeira passa que uma miúda dá num cigarro, ou no primeiro gemido que soltará; é uma míriade de cinzentismos, metáforas decadentes que percorrem o ar, e pessoas abandonadas à sorte, que morrerão como as árvores. sem ninguém dar conta.
No parque central da cidade os velhos andam devagar ao som das suas articulações, e os miúdos percorrem os caminhos com bicicletas ou amigos e amigas num incerteza que mete dó; e os casais de meia idade que vestem aos fins de semana o fato de treino para irem passear fazem-me relembrar ao sítio onde estou preso, numa vaga já me indiferente de futilidade, e comundade anónima absolutamente assustadora. é necessário elevermo-nos. primarmo-nos por uma genialidade aparente - quem sabe, mesmo que não a pussoamos. e, assim, fico de pé a ver os velhos a jogar à bisca e à sueca nas mesas do parque, ao pé de um lago sujo onde vivem meia dezena de patos, enquanto, olhando para outro lado, meia dúzia de pretos andam em grupo, num domingo à tarde, à procura de miúdos isolados para roubarem. são notas mentais, que vou fazendo - there, but for the grace of God, go I. e depois tento descortinar-me a mim, neste cenário que só eu consegui ver e descortinar, porque não - não pode ser só tudo uma minha fantasia. e então o jazz deixa de fazer sentido ali, e então tenho de me ver à distância, de perfil, vendo-me a olhar absorto para um ponto qualquer num horizonte curto de betão. quem sou eu naquele cenário? será que fujo à homogeneidade normal? e se sim, então porque é que ninguém repara em mim, porque é que ninguém se questiona que eu destoo da paisagem normal que é a dos condenados ao esquecimento ainda enquato vivos. ? - Vamos avançando, abanando a cabeça em descrença de nós mesmos, e enfiamo-nos nos nossos cubículos e, vendo a cidade de cima, fingindo-me voar, não consigo descortinar-me, sou tanto quanto os outros - absurdamente humano.
Notas. pois que o jazz deixe soar elas, enquanto vou já decorando as caras no comboio e no metro, e vou desejando ardentemente que, um dia, os meus filhos possam colocar, quem sabe ainda mais cedo, as mesmas questões que coloquei - que tenham impensáveis momnetos de lucidez extrema e percebam que, ao contrário do que estúpidos niilistas e abstrccionistas existenciais dizem, tudo na verdade faz sentido.
Sim, tudo faz sentido.
Mas ninguém disse que havia algum sentido nisso.


J.

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sábado, abril 23, 2005

cisos e afins.

ok neste momento são as duas da tarde, e ameaça chover. não que isso me afecte...: basicamente, vou ter de ficar em casa uns três dias, devido ao facto de ter ido arrancar um estúpido dente do ciso que, ironicamente, ainda não nasceu. o estuporzinho estava ainda dentro da gengiva, mas se nascesse, mandava dois anos de aparelho e fraco sex appeal para o catano. a operação não correu mal sequer; quando vi o meu sangue no tubo transparente apeteceu-me rir que nem um perdido, mas, infelizmente, tinha o lado direito da face paralizado, três tubos na boca, e um dentista que cantava, baixinho, uma estúpida música inventada por ele enqaunto me cortava a gengiva, me arrancava o estupor do dente, e me cosia com sete pontos. apeteceu-me mandá-los todos à merda, mas não era por raiva, estava mesmo hilariante. quando a operação terminou ri-me que nem um perdido com a face paralizada enquanto dizia, haha... só sangue, que estupidez; fui calado por uma assistente de aparelho que me enfiou uma gaza na boca.
bem, o pior foi depois. presentemente encontro-me com uma boca cheia de saliva, porque as dores a engolir são tais que tenho de tomar balanço e gemo de dor durante um minuto, depois. a noite também foi engraçada, acordava de dez em dez minutos com dores, e, de manhã, a minha almofada era uma esponja de baba. não como nada desde ontem, se tirarmos iogurtes e compais e actimeis, dos de laranja...claro. é. tem sido uma convalescença engraçada. ha, e a minha cara inchou, e abro tanto a minha boca, neste momento, como a minha avó.


e ainda falta um dente. a vida não é maravilhosa?

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quarta-feira, abril 20, 2005

concretizações.

Esta noite deixa-me a sós.

Vou correr pelas ruas
fazer de mim número um
esconder escamotear preocupações
perder-me em morfina Manter
o corpo aquecido
ir por aí feito criança E sim
ver_______________
toda a lua que se estilhaça Deixar passar
(keep it cool)
De qualquer maneira
Não sabem
Ainda

Quem sou –

Ter todas as letras e completar-me
Porque
a
cada
dia
cego
vou na mesma a lado nenhum

E não me importo E
Pergunto-me
se é desta que vou saltar
Que há de especial em tudo isto

Oh no

Manter o contacto com o
Fenómeno –
a supernova silenciosa –
Encher o peito de oxigénio
E cá vou eu
sempre pronto para nada
a Olhar pela janela
a agarrar com as duas mãos
a fluidez dourada E tropeçar

como se ao menos me pudesses dizer
o sabor da tua voz
quando não estou lá para ouvi-la
E sim
da maneira como me conheces sabes
Que sim
Vou percorrer cada nota da tua guitarra

Tornar-me essa melodia
a cada segundo em que ela aprendeu a desvanecer-se
vou mudar de rumo
brincar ao jogo da vida como da primeira vez
Num faz de conta delicioso
E não me culpem
se sair porta fora discretamente
porque sou um vadio dos meus gestos
e se me enganar na rua na hora e no milénio
Acreditem Que
quebrei
as
algemas
da
apatia
porque o prazer de correr o risco E errar
está tão mas tão Tão perto
que evitá-lo seria…




Bem,



De qualquer maneira
Não sabem ainda quem sou.





(P.)

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sábado, abril 16, 2005

crónicas musicais I

bem consegui finalmente reaver os meus cds que há tanto tempo estavam em mãos estranhas (diga-se, dos meus amigos), e estava com saudades. estou aqui a ouvir ellioth smith. quem não sabe a história do ellioth smith eu dou uma ajuda; foi encontrado morto recentemente em sua casa, com os pulsos cortados. estranhamente, a autópsia não indicava para tentativa de suicídio, apesar de outras tentativas no passado. ellioth foi violado em criança, o que para mim até é bom, porque acho que influenciou de forma porreira a música dele. fez-lhe bem, então, ter sido violado - só é pena é ter morrido.


depois temos blasted machnism, avatara, o novo cd. ou seja; também já estava com saudades, sendo um cd recomendado a toda a gente que curta qualquer tipo de cena a abrir com um groove, será que o posso dizer assim, muito próprio.


e por fim, at the drive in, que continuarão a ser sempre, para mim, os verdadeiros reis (já defuntos) do rock que se fez no início do milénio, e não talvez uns queens of the stone age levados pelos ventos da bonança com o seu songs for the deaf (alvíssaras a quem me arranjar o novo, lullabyes to paralyze).


e, por fim, alguém me consegue dizer o que têm os the libertines de tão especial? não consigo perceber a paranóia indie à volta de uns filhos bastardos da união sexual entre os radiohead em tempos de the bends e uns talvez white stripes ou franz ferdinand sem brilho...


e parabéns a mim, que consegui fazer um post simples e sem ter, pelo menos, três páginas em formato word. viva A Navalha.

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quinta-feira, abril 14, 2005

Doves, Black And White Town

Há várias maneiras de tornar a tristeza bela; a frustração e uma juventude perdida com vários anos de revolta por trás dela – e o arrepio permanente, juro, que ainda agora me percorre a espinha quando penso nisso. Um delas seria a escrever, outra, quem sabe talvez; um dom possível falando e fazendo-nos chorar ante uma coisa tão incrível, pessoalmente nunca vi nenhuma pintura, encontro filmes verdadeiros, mas talvez apenas as músicas, porque só fornecem as pitas necessárias, nos provocam essas anamneses que julgávamos, até então, nunca sequer ter ouvido falar delas.
Refiro-me a uma música dos doves, black and white town, a mesma que usei enquanto vibrava, com os meus amigos a verem-me numa tarde de sol, com a cabeça para cima e para baixo martelando num teclado como um piano (e, que felicidade percebera que então era músico, e senti-me tão de repente cheio de tudo o que queria fazer na vida) , para escrever o meu primeiro post, aqui, na Navalha, em orgasmos constantes de felicidade, euforia, e compreensão de tudo o que me era, tendo como imagens mentais não só eu mesmo mas como também esse videoclip, tão sublime.
Penso que um dia tentei explicar a uma amiga minha de Coimbra o que eu sentia ao ouvir esta música, ainda para mais por escrito
E nestes momentos juro que só me apetece chorar a tanta beleza que acredito que ninguém sinta como eu
Mas não consegui, como queria; a música black and white town, dos the doves, em conjunto com o seu clip, é um portento; parece que foi esquecida do trainspotting como a talvez a perfeita música para um final, para um início, ou para a banda sonora das nossas vidas, a música que colocamos nos phones quando saímos de casa e começamos a correr pelo absolutamente maravilhoso porque sim. Quero absolutamente um dia voltar a fazer esses assomos de euforia, gritar em comboios ou rir-me durante incontáveis minutos em inúmeros cafés enquanto sim, talvez, esta música passe e eu, enfim, me sinta abençoado
Uma juventude perdida que é a minha
Sentir desfilar as imagens do clip que povoam a minha mente e dar-lhes as cores do vermelho, amarelo e azul de Lisboa na minha realidade
, tudo se nos aflora
e as respostas, e os assomos de escrita, e de vida e de
Sim
Realidade
Irrompem das nossas mãos, das nossas línguas, dos nossos pincéis ou canetas, das nossas câmaras e dos nossos beijos, dos nossos sexos enquanto, Eu
Passando a mão pela cabeça acariciando-me, com força
Sim, com
Muita força
Suspiro e sorrio calmamente…
Por saber que programei a música
Em repeat.







J.







Sintam a curiosidade e experimentem: doves, black and white town…com videoclip.
E depois venham-me dizer o que acharam.

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quarta-feira, abril 13, 2005

grito mudo.

É o ataque brutal das gentes míopes vindas das profundezas do desespero a cada noite todas as noites infindáveis gritos que não podem ser domesticados Deixem-me mostrar-vos o poder que há em mim arrancado e trespassado não o podem saborear não o podem sentir deixem-me dizer-vos o todo que há em mim por medicar deixem-me berrar sangrar e tragam-me de volta o sono porque hoje estou para vos foder o juízo e se alguma sorte me restar poderei saber quando foi que decidi enlouquecer porque esta noite sou o animal feroz de mim próprio e tornar-me-ei toda e qualquer sensação porque o que há aqui não poderá sobreviver aos ventos furiosos ciclónicos que querem chegar que estão a chegar para arrancar tudo o que insiste em resistir e não desiste e persiste e perante as dificuldades sobrevive mas mais não já não pois estou sequioso de vingança E acho que ainda subsisto mas as ideias fogem-me do papel como se fosse uma manada de bestas em fuga por entre campos e palcos onde se conta a história do artista que foi baleado no clímax da peça e elas fogem e estou faminto e tudo isto terá de ser meu ainda antes de desabar a cidade que se pintou de cinzento e qualquer um dirá que as hipóteses são ínfimas mas eu não as vou deixar fugir serão minhas ainda antes de o meu braço doer ainda antes de fracturar o pulso e toda uma vida por ter falhado uma palavra E não há bom senso não há humor não há vontade apenas o prazer característico dos debochados que aprendemos a ser somos débeis somos fracos somos tão tristemente humanos e matem-me a lucidez e matem-me a moral e matem-me rebentem comigo façam de mim explosão e permitam-me que me torne a luz opaca que nos cega a cada segundo de contemplação da nossa própria fragilidade a cada segundo em que julgamos ter esquecido as podres origens do raciocínio e de quem somos




(permitam-me uma pausa.)




A cada instante que esqueço quem sou sinto vontade de cravar no coração a navalha que me tornará imortal e as paredes brancas que enclausuraram o silêncio parecem agora derreter sem forças suficientes para suportar os dois mil graus centígrados que o ardor que respiro projecta e se alguma forma de salvação existe ela está aqui em cada célula que se irá disseminar e eu já não sou quem era mas não me encontro sozinho nem no vazio pois somos todos vitimas das nossas próprias certezas e não há nada nem ninguém que nos possa defender quando tudo o que temos à nossa volta não passar de ruínas que um dia fizeram uma civilização e esqueçam todos os beijos maternais e abraços fraternais que um dia vos deram pois para lá deste tempo haverá um mundo novo uma outra dimensão onde o céu se reveste de vermelho e a chuva é ácida e as árvores são monstros que esbracejam a cada brisa e parecem murmurar o nosso fim parecem prontas a agarrar-nos e a chicotear cada osso do cadáver em decomposição e que já somos mas não queremos acreditar Não queremos acreditar e há por isso um preço a pagar Meus amigos sou um escravo de mim próprio e o crepúsculo que se aproxima chegará para tomar conta de mim e não há nada que eu possa fazer estou cansado e perdido vagueio sentado nas minhas sensações ouço guitarras e tambores tribais ouço vozes roucas que me querem ensinar o que devo fazer e a brutalizante melodia derrotou-me e já não passo de um parco reflexo do miúdo que em tempos habitou no meu corpo


(…)


Preciso de tempo para o que se segue:





Se esta noite eu enlouquecer por favor digam a quem me conhece que um dia tive um nome que agora esqueci que um dia dancei freneticamente como se fosse a última coisa que me restasse fazer em vida que um dia tive voz para murmurar um simples desejo que um dia vos observei gentilmente e se tudo isto não passam de sonhos que alguém como eu não poderia viver então tenham comigo a mesma delicadeza que sempre tive com vocês Escrevam no meu epitáfio um simples até logo por nunca aprendi por mais que tentasse a dizer adeus e se nem esta amálgama de palavras é suficientemente esclarecedora então venham comigo Viajaremos através dos anos que levaram ao meu desaparecimento e desta vez não haverá vazio que nos baste e desta vez não haverá angústia que nos cale somos humanos e nem por isso pensamos somos humanos e só por isso resistimos apaguem por breves momentos o espírito solene que há em cada um já que neste exercício de ferocidade dispersa ele só nos poderá atrasar na longa marcha que ainda temos pela frente que jamais terminará enquanto o nosso mais curto suspiro não estiver carregado de poesia E no novo mundo imperial seremos tão somente nós mesmos E quanto a mim só vos posso dizer que testemunharei à distância enquanto procuro no âmago de mim mesmo as respostas a todas as questões que um dia me atormentaram e até me deliciaram sempre com uma única certeza na minha mente – Nunca as poderei encontrar.






Tenho sono. Tenho tanto sono que só me apetece…dormir.





Até logo.







P.

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sábado, abril 09, 2005

Apontamento.

O cenário é simples em palavras de melodias talvez perfeitas para uma tarde, chuvosa, a cidade pode ser uma qualquer; prédios e ruas em ângulos de câmara com alguma sombra, a toada vem do chão, não vibra mas sente-se nas paredes, é apregoada talvez no andar de cima, andar de baixo, um silêncio no entanto no próprio acto. Encontro-te assim, em sons e vidas de outras pessoas em histórias que um dia me contaram de contornos prateados – talvez que o ritual que estás a fazer, pergunto-te, seja mesmo necessário? Mas dizes-me – um pouco apanhada em flagrante, talvez, por uma estranha calma perante a navalha que seguras entre os dedos;
- O que queres tu dizer com isso.
Se o meu cigarro nessa altura foi arremessado para o chão alcatifado do teu quarto com uma janela que devora toda a luz que se projecta para o quarto, então foi só para me apoiar na cadeira ao pé da secretária, com a mão, papéis rabiscados com uma fúria, depois um freneticismo algo abstracto, tentaste finalmente a ordem, escreveste as cartas. O ambiente está perfeito para
- Uma mutilação.
- Sim, uma de facto mutilação. Sabes-me? Talvez um porquê; pergunto-te. Tu sabes?
Não estás feia só com essa saia pregada azul escura e blusa branca, penso antes de dizer algo observando as cartas. Não, amor, não sei nem um pouco querida, não te estou para impedir de nada, suponhamos tu e eu talvez, que pensamos da mesma maneira e
O quê
Que tu e eu pensamos da mesma maneira, entendes; de que de facto algo hoje se faça sentir, diferente. A chuva confere o tom adequado de cliché à coisa; abriste as cortinas. O teu acto é um sacramento.
Quase um sorriso sentiria eu entre os teus cabelos que caíam cremosos talvez; rodaste o canivete, a faca, entre os dedos novamente, a imagem era incrível; de costas, para mim, ajoelhada no chão, uma mão apoiando-se no chão, a outra preparando-se para cortar algo, virando a tua cabeça para me tentares ver em rasgos de sanidade que sempre tiveras, eu conheço-te; que vidas incríveis levámos os dois, se eu meto a chave à porta e encontro algo com a certeza do meu dia um pouco fratricida, enquanto me amas, me dizes que me amas, enquanto e durante cortas o teu clítoris, porque eu teria sempre de chegar a tempo.
Teria sido um insulto à beleza crua do teu acto feminino e grotesco se tivesses usado um bisturi.
- A luz é a mesma; a chuva cai da mesma maneira se eu te sentir aqui, se eu jurasse que te ouvia mesmo com a música que não é minha mas ressoa aqui
- Porque não podia ser de outra forma
- Então eu ter-me-ia cortado na mesma; quem és tu, porque regressaste? Existes talvez aqui?
Apontas para o coração.
- Podes sentir o medo da minha calma. A minha sensualidade a esvair-se como sangue, os gritos.
- Posso, posso sentir isso tudo.
- Nem sequer o ter trazido um torniquete. Hum…? É quase como quando fazíamos amor, não era…?
Pendeste a cabeça e miraste o cabo em osso polido da tua epifania;
- Violência?
Não direi que a caoticidade se instalou porque a conversa foi tão natural como se na vida nunca sequer te tivesse conhecido, filha da puta. Ias fazer uma viagem…? Mas o corte do clitóris não magoa, não mata sequer, é um entorpecimento do teu ser, se feito a frio, se auto-mutilado, a tua psique destruída, para onde ias, se não fazes sentido fora deste apartamento, como o verão não faz sentido agora;
Lembras-te como nos amamos entre os lençóis que faziam a nossa cama parecer uma jangada
- Nem sequer me escreveste o caralho de uma carta.
Se fui honesta? Não propriamente, não terrivelmente. Tu perguntas-me o porquê mas não me perguntas o quando; o quando me senti num filme mudo, não digo talvez a preto e branco, um retrato a sépia, a janela na noite fazia a minha silhueta mais sensual que eu, assomos de golfadas de onanismo mental…
- Foste abençoada com o dom da lucidez, parabéns
,Se deflagrei um pequeno incêndio no canto da minha boca, era só porque precisava de mais um companheiro entre mim e ela, se queria atravessar o quarto e fitá-la agora de lado, a chuva a querer rebentar comigo e rebentar-me nas suas explosões lancinais de frio.
- Quando é que a ideia te passou pela cabeça, querida, quando é que eu comecei a ficar preso demais a este mundo, se me dizes (porque não choras, não é; porque estás totalmente neutra a sensações de pânico excitante) que cortares parte da tua vagina, do teu clítoris, da tua vulva, faz sentido, O. prazer desaparece, dá lugar a uma fricção absoluta de condenada.
Se o sexo em talvez não fosse nunca sexo, segredamo-nos quando os nossos olhares se cruzaram pela primeira vez onde tu, olhaste para mim, um saxofone silenciou-se ao longe
Tu disseste
Não quero mais o contacto dos teus lábios, perdoa-me queria dizer só lábios mas disse teus, em preces veladas quero que nunca mais as viagens que sozinhos todos encetamos a dois se percam, a meio do caminho talvez; onde há um porquê nisso, que nos faça querer fazer isso, se
E se o faço, E tu dizes ainda,
- E se eu o imagino faço, não poderá ser feito só porque é pensado, eu criei-o, quero fugir por uma porta sem beijar a loucura mas escarnecendo dela, não.
Adolescente.
- Não, já não. Não posso teorizar em como tudo assim seria sublime
,Pegas na navalha
Novamente eu dou a minha última baforada e levanto-te a saia, digo, mas não, talvez tu digas primeiro
- O que vês, se não já concordas
Chateia-me nunca teres escrito a minha carta
Digo
- Chateia-me não teres escrito a minha carta.
Uma mão toca no pulso enquanto dizes
- Se talvez eu soubesse que virias, meu gume inflexível, mistério insondável como eu, e agora.
Digo-lhe eu
;E agora é a outra mão que depois do pulso pulsou na lâmina só com um dedo, abro-te só um pouco devagar as pernas
- Não é o acto, não é o depois, não, pois não.
Desce
Não é o acto, não é o depois nem o antes como memória de uma perfeição por nós destruída como um marco na vida, a relação algo misteriosa acabada, a chuva que explode na janela a luz azul que quer assassinar todo o dia se tu em teu corpo eu em ti, e depois um levantar enquanto eu assinava as tuas cartas e deixava a navalha em ti se não é loucura se
Não é loucura então para quê sequer um trapo para abafar os gritos das dores que serão êxtases de lancinamentos e gritos sem lágrimas
,Se eu, se
Se eu pegar na tua mão, roubar-te talvez a negação pessoal a um este mundo, num banho de sangue, talvez, te abrace depois só para amparar o teu corpo, só para ajudar amparar o meu, lembrar-me dos cheiros
Sinto a chuva a explodir na janela




- Não, isto não é sequer um encontro de dois amigos
Tu e eu
Rasgo-te a saia com a faca mal afiada
,
Sim
; e entãoesquecemos os dois a mulher que eras, em um baptismo pagão de sangue.















J.

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onirismo.

E longo quando era menos esperado, eis que nos despertam do nosso já longo sono e nos trazem de volta à realidade. Pois bem. Cá estou eu. E algo vai acontecer em breve. O caminho da harmonia é essencialmente marcado pelas circunstâncias e estas insistem em tiranizar o pensamento. Olha-me nos olhos com atenção, por favor. Consegues ver a alegria no meu rosto? Passei anos a criá-la e ela parece-me agora tão pérfida, tão brutalmente mentirosa. Tens alguma ideia de quanto vale o abraço que antecede o último suspiro? – Talvez seja esse o poder de um adeus. Mas, sabes, todo o tempo que leva a dar vida a uma memória só ganha sentido nesse instante e o meu único deseja era ter a capacidade necessária para o eternizar. Mas não. Percorro dias intermináveis no mesmo constante limbo tentando socorrer-me na força das palavras mas nem mesmo estas terão a tenacidade suficiente para me salvar. Mas deixa as sensações fluírem com a mesma simplicidade que te trouxe até mim.
Para lá dos sentidos há uma outra existência que anseio por conhecer.
Mas ainda não sei o que é a beleza e sinto-me fraco por ter perdido tantas horas a tentar teorizá-la. E se há em mim lucidez suficiente para a poder observar, então quero abdicar dela, neste instante e sem receio, apenas para a poder sentir lentamente. E quero agora curvar-me perante ela – e que parca noção de beleza será esta que me faz acreditar que lhe posso tocar?
Vou fechar os olhos enquanto a dedilho suavemente e, quem sabe inocentemente, esperar pelo momento em que a poderei acolher nos meus lábios e, com um beijo, a eternizar.
E no fim de tudo isto não me restarão palavras. Apenas ternos gestos que serão a única explicação plausível para o que é, tão irremediavelmente, inexplicável. Anda, vem comigo fazer do hoje o mais terno prenúncio para o que se seguirá. Estamos aqui. Somos únicos. E não dar agora o passo em frente será como desistir. Talvez por isso penso agora que, ao contrário do que em tantas outras vezes acreditei ser a verdade, não fui, não sou…talhado para desistir.



Anda, vem ensinar-me o que é a beleza.





(P.)

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quinta-feira, abril 07, 2005

cidade adolescente

Lembro-me de que certa vez um de nós decidiu começar a falar sobre as pequenas coisas que inocentemente alteram o rumo de tudo. Lembro-me de que ao fundo se podia ouvir uma música, talvez a mais bonita que alguma vez tenha ouvido. Era mais um fim de tarde cinzento na cidade que tão bem desconhecemos e acredita que por momentos pensei que era ali, precisamente entre nós, que as grandes ironias da vida se haviam decidido juntar e dizer, Estamos aqui para vosso deleite pessoal.
Com algum despudor decidi perguntar o porquê. Como resposta levei um soco no estômago. Não fazia sentido – é esse o papel que o absurdo não se inibe em representar. Compreendi que tinha de aceitar a minha humanidade por aquilo que ela é. Foi, sem dúvida alguma, um dia estupidamente concreto. Durante horas a fio falámos do nada numa adolescente tentativa de racionalizar aquilo que era devastadoramente maior do que nós alguma vez poderíamos ser. Tenho a certeza de que é nessas alturas que se morre sempre um pouco mais. Mas não desisti. O desafio consistia em tentar o impossível. E tentámos, como em tantas outras vezes o havíamos feito apenas para chegarmos à mesma conclusão de sempre:






Amanhã tentaremos um pouco mais.





(P.)

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quarta-feira, abril 06, 2005

O que eu queria ser mesmo
Era saxofonista
Numa escola de Jazz com janelas
a dar para os barcos no Tejo
e ler pautas como
meus poemas.
Fazer jam sessions com o meu amigo baterista
e
A minha namorada pianista
e os meus colegas sorridentes ou talvez tristes também
como eu
e gravar os meus objectivos permanentes de vida
nessas tardes.




Sim, eu queria ser músico; talvez
de Jazz
e particar um teatro lânguido
nas horas vagas, enquanto esperava a noite
para escrever; criando sonhos negados
por outros
e
derramar sensações em papéis
ou notas
Quando os meus beijos e o nosso amor
cálido trepassem em calor azul escuro
pelas paredes do meu estúdio em Lisboa
comprado.




Ver passar as horas com o significado
de anos enquanto drenava a inspiração
de bancos de comboios, metros e autocarros
em tardes tão múltiplas como o meu
estado de espírito
e
Encontrar-te ainda sem nome.

Eu queria ser saxofonista se também tivesse jeito
para pintar.




negaria as leis pela música, e outra existência
Mas como convencer-me que os meus sonhos não são mais
que uma estranha forma de inocência.
...notas tocadas por saxofones irreais.





eu queria ser músico de
Jazz
Sim; eu queria
ser.














Músico de Jazz.
21/25/06/04/05
Margarida Pinto, apontamento.




J.

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domingo, abril 03, 2005

[outro] primeiro corte.

Segue por essa rua suja durante três ou quatro quarteirões até encontrares à tua esquerda uma escada íngreme. Tem cuidado com os degraus que parecem poder ceder a qualquer instante. Sobe-a sem olhar para trás, mas por favor não te esqueças de contar cada degrau, um a um, como se ainda fosses uma criança. Lá no alto, uns metros à tua frente descobrirás uma barbearia de aspecto bastante rude. Entra e senta-te na única cadeira que lá se encontra, mesmo em frente ao espelho. Fita o teu próprio olhar por um breve momento. A barba, por favor – não precisas de dizer mais. Em gesto afirmativo verás um velho a pegar numa navalha, se estiveres atento não deixarás, por certo, de constatar que a lâmina desta se encontra um pouco enferrujada. Ele dir-te-á a verdade: Vou ter de o fazer com água fria, senhor. Tudo bem. Sentirás a fria navalha a tocar-te na face, a percorrê-la, e, ao reparares na trémula mão que a segura, não é de admirar que te ocorra a ideia de que vais ser degolado ali, naquele exacto segundo que será tão longamente precioso. Mas não te preocupes. Nunca ninguém lá morreu. A vossa companhia será uma voz rouca e uns trompetes desafinados que insistem em querer sair do seu cárcere. Este não passará de um gramofone que parecia já ser antigo ainda antes do velho ter nascido. Perceberás que não importa que ano é este.
Tu não estás no teu tempo.
Uma das paredes encontra-se forrada com recortes de jornais; algumas efemérides, memórias parcas e sem futuro. Uma outra parede tem apenas uma fotografia a preto e branco, emoldurada, de um jovem casal. Ela; um pouco feia mas sorridente. Ele; de cabelo curto e arranjado, pelas suas feições saberás de quem se trata. Será porventura a dicotomia mais estranha que possas imaginar. Um pequeno mundo compartimentado dentro de algo maior. Sentirás no ar o cheiro a mofo - é todo um espaço carregado pelo severo peso dos anos que inexplicavelmente se ergue. Não tentes compreender o porquê de estares ali. Não há razão alguma que justifique o que o destino nos reserva.
A dado momento repararás nas gotas vermelho-sangue que brotam da um ligeiro corte no teu rosto. Não sentirás dor devido à água fria que te gelou até ao tutano dos ossos. Fecharás os olhos num simples acto de submissão perante a sensação que não consegues descrever. Perceberás, então, que foste marcado.
A Navalha.


(P.)

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sexta-feira, abril 01, 2005

crónicas de um encalhado parte I

hoje vi uma mulher com um dos melhores rabos que em toda aminha vida já vi - não, atenção, não era só um rabo, era toda a silhueta, os cabelos, o fio dental branco e meeeeeesmo fino que parecia trepar-lhe pelas costas cada vez que se debruçava de frente, sentada numa cadeira de recosto transparente. de frente era feia, ou melhor; não era gira, o que me fez só querer vê-la de costas. isto é interessante. foi a melhor gaja, a gaja mais boa, que vi em muuuito tempo - de costas.




é oficial: estou mesmo a precisar de uma namorada nova.


(J.)

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Primeiro corte

Este seja talvez um começo certo, no dia das mentiras. É quase a uma da manhã, e como é óbvio, uma memória –
Destapa-se dos lençóis amenos desta noite e faz-se sentir permanente, aqui junto à lucidez possível, do criador. Eu. Fumo-a com as mãos, os dedos e sinto-a na boca.
Desapareceu com a calma própria dos instáveis esquecimentos perenes.
No tempo em que, penso, éramos um pouco menos do que somos agora, existia uma escuridão, quase sensual; sensual decerto, diga-se – que prespassava-nos com o medo inerente às coisas desconhecidas. Como tal era assim a natureza dos nossos textos e dos nossos pensamentos – e não nego que já não o sejam, porque parte deles ou grande parte deles o são ainda – , e quando o amor regressou, para ambos inesperadamente, o que existiu somente foi luta, e perda.
Fizemos das navalhas a nossa forma de ver a vida, caminhar no seu gume incerto com o olhar, rolá-las pelas mãos faiscando as lâminas por braços algo virgens de tatuagens, ou cicatrizes, e desejar que as mulheres fossem como elas.
Uma noite tudo deixou de fazer sentido, e então, porque não dedicar um culto à FACA, à NAVALHA, a uma naifa curva que nos faça sentir mais poderosos enquanto humanos, simples, sentindo-as no bolso sempre que percorremos ruas de cidades que decidimos tornar reais em nós, e amar, com a certeza de que um dia elas também nos cortarão e serão uma navalha em nós?
Este é um blog de histórias e sangue abstracto das cores que povoam a palavra a que damos o nome de INCERTEZA; os seus sinónimos noutras línguas são falsos. Etimologicamente, só pode fazer ainda mais sentido; pessoas desfilarão pelo reflexo do gume, e tentativas (agora sorridentes…) de não enlouquecer nunca, ou deixar a loucura por momentos, serão cortadas pela impossibilidade de um sacramento.
Amem as navalhas. Elas são as filhas de todo este sarcasmo lunar.



Quanto a mim, despeço-me com um corte.

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